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Papa alerta que a paz mundial não pode ser mantida com base no medo

Published in Breves
quinta, 12 dezembro 2019 14:39

O Papa Francisco alerta, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro, que a estabilidade mundial não pode ser mantida com base no medo entre países, assente na ameaça nuclear.

 

"Não podemos pretender manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação, num equilíbrio muito instável, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferença, onde se tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada para os dramas do descarte do homem e da criação, em vez de nos guardarmos uns aos outros", escreve Francisco no documento hoje tornado público pelo Vaticano.

Segundo o Papa, "muitas vezes, a guerra começa pelo facto de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio. (...) A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo e, simultaneamente, alimenta tudo isso".

"Toda a situação de ameaça alimenta a desconfiança e a retirada para dentro da própria condição. Desconfiança e medo aumentam a fragilidade das relações e o risco de violência, num círculo vicioso que nunca poderá levar a uma relação de paz. Neste sentido, a própria dissuasão nuclear só pode criar uma segurança ilusória", sublinha o Papa Francisco.

Com o tema "A Paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica", a mensagem recupera a recente viagem papal ao Japão, onde o Sumo Pontífice reconheceu ser paradoxal que o mundo "viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo".

"A paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma ameaça de aniquilação total", frisou na ocasião, o que o leva a considerar que a memória pode ser um contributo para a paz.

"Os sobreviventes aos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui -- denominados os hibakusha -- contam-se entre aqueles que, hoje, mantêm viva a chama da consciência colectiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescritíveis que se seguiram até aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição", escreve o Papa na mensagem hoje conhecida.

Para o chefe da Igreja Católica, "a paz é um bem precioso, (...) por ela aspira toda a humanidade", que traz, "na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afectando especialmente os mais pobres e frágeis".

"Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade -- incluindo a liberdade religiosa --, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro", acrescenta.

Para Francisco, é necessário "procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua".

"O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade mais além das ideologias e das diferentes opiniões", escreve Francisco.

O Papa aponta também noutra direcção, alertando que "nunca haverá paz verdadeira", se a Humanidade não for capaz "de construir um sistema económico mais justo".

Também a questão ambiental é abordada na Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, com Francisco a defender uma "conversão ecológica".

"Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais -- considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza --, precisamos duma conversão ecológica", escreve.

"O Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças", sublinha a mensagem papal. (RM-NM)

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